Perdido na Tradução

Quinta-feira, Dezembro 30, 2004

Últimos instantes e primevos momentos

Sei que essa citação já está gasta, mas ainda sim é fiel e transcreve bem a lógica e a intensidade de um possível amor:


Soneto da Fidelidade
Vinícius de Morais

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Post mortem: Susan Sontag

SUSAN SONTAG, VOZ CRÍTICA E POLÊMICA DOS EUA

Poucos dias depois dos atentados de 11 de Setembro em Nova York e em Washington, quando os Estados Unidos ainda tentavam entender a tragédia que se abatera sobre eles, a escritora, ativista e cineasta americana Susan Sontag ousou dizer, num artigo publicado na revista “The New Yorker”, que o ato não era “uma ação covarde” e sim, sob certo aspecto, uma conseqüência das ações do governo de seu país. Sontag, que desde os anos 60 tornou-se uma das principais vozes entre os intelectuais a bradar, em livros, entrevistas, palestras e movimentos políticos, contra as diretrizes da Casa Branca, enfrentou uma chuva de críticas, mas seguiu firme em suas declarações diante da nação ferida e do mundo.

A palavra contundente e nada contida de Sontag, que foi correspondente em plena Guerra do Vietnã, contra a qual lutava, e esteve também nos Bálcãs, nos anos 90, chamando a atenção da comunidade internacional para os conflitos que fizeram ruir a antiga Iugoslávia, fez-se presente mais uma vez este ano. Em maio, a “The New York Times Magazine” publicou um de seus últimos ensaios, “Regarding the torture of others”, sobre a tortura de detentos iraquianos por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, em Bagdá.

Ontem, depois de uma longa batalha contra a leucemia, a escritora, uma das intelectuais dos EUA mais conhecidas e consagradas no mundo, autora de 17 livros entre ensaios e romances e que descrevia a si mesma como “fanática da seriedade”, morreu aos 71 anos no Memorial Sloan Kettering Cancer, na mesma Nova York onde nascera em 1933.

Sontag publicou seu primeiro livro, a novela “O benfeitor”, em 1963, mas seu nome popularizou-se no meio intelectual com dois livros considerados fundamentais em sua bibliografia: “Notes on camp” (1964) e “Against interpretation” (1966). Foi nessa época que o escritor Silviano Santiago descobriu as idéias de Sontag.

— Eu fui assistir a palestras dela e fiquei encantado com as teses que ela defendia na época, em particular um artigo clássico (“Notes on camp”) em que ela se tornou a primeira pessoa a fazer uma leitura da produção artística homossexual — conta Silviano. — Ela também tem uma capacidade extraordinária de aproximar o pensamento francês pós-moderno e da Escola de Frankfurt da melhor crítica literária americana, com um interesse sincero pela América Latina.

Leitora ávida de Borges e de outros grandes nomes da literatura latino-americana, Sontag fez um longo artigo sobre Machado de Assis, que Silviano chama de “definitivo”. O escritor também destaca a sensibilidade da ensaísta em abordar temas como as doenças, que geraram dois livros: “A doença como metáfora” e “Aids e suas metáforas”. O primeiro deles surgiu quando Sontag lutava para superar um câncer de mama, nos anos 70, e em ambos ela observa como as doenças são romanceadas e demonizadas na sociedade moderna.

O último livro da autora lançado no Brasil foi “Sobre a fotografia”, em maio, pela Companhia das Letras. Em 2003, a editora, que publicou boa parte das obras de Sontag no país, lançou “Diante da dor dos outros”, no qual a ensaísta analisa o impacto das imagens de sofrimento divulgadas pelos meios de comunicação. O cronograma de 2005 da Companhia inclui outro livro da ensaísta, “Questão de ênfase” (título provisório), com lançamento previsto para março.

O editor Luiz Schwarcz, da Companhia, lamentou a morte de Sontag, que ultrapassara a fronteira de autora para tornar-se amiga. A americana esteve várias vezes no Brasil, a última delas em 2002, num evento com o historiador Carlo Ginzburg na Biblioteca Nacional. Sontag também chegou a confirmar sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho último, mas cancelou a visita.

Em entrevista ao GLOBO em outubro de 2003, a escritora confessava-se ansiosa por um encontro com o presidente Lula. Naquele ano, Lula e Sontag receberam, em suas áreas, o importante prêmio Príncipe de Astúrias, concedido pelo governo espanhol. Poucos meses antes, em junho, ela dissera que a eleição de Lula “foi o único resultado eleitoral que me fez feliz no último ano. É um país sobre o qual digo: ok, o mocinho venceu”.

Incansável em sua luta pelos direitos humanos, Sontag envolveu-se numa polêmica com Gabriel García Márquez em abril de 2003, a quem criticara por seu silêncio diante da forte repressão de dissidentes políticos em Cuba.

— A principal responsabilidade é dizer a verdade. (...) O compromisso do intelectual é com a verdade. O exemplo de García Márquez me veio porque eu estava em Bogotá e disse que adorava o seu trabalho, mas não podia concordar com quem não criticava uma ditadura onde as pessoas não tinham a liberdade da palavra — explicou ao GLOBO, em outubro do ano passado.

Embora tenha se notabilizado por ensaios variados e tenha apresentado aos EUA grandes nomes do pensamento europeu, como Benjamin, Barthes e Godard, Sontag, que cursou filosofia na Universidade de Chicago e fez pós-graduação em Harvard, também recebeu prêmios por sua obra literária. Em 2002, seu romance “Na América” conquistou o prestigiado National Book Award.

Filha de um comerciante, que morreu quando ela tinha 5 anos, e de uma mãe alcoólatra, a escritora, de ascendência judaica, deixa um filho, David, da união com o historiador Philip Rieff, com quem se casou aos 17 e de quem se separou nove anos depois.

Fonte:
29/12/2004
Jornal: O GLOBO
Editoria: Rio
Página: 17
Caderno: Primeiro Caderno

Quarta-feira, Dezembro 29, 2004

R e i n v e n ç ã o - p a r a - 2 0 0 5

Reivenção
Cecília Meireles

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... —
mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.